(*) Amenidades II
Musicalmente falando… (parte II)
(“… Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy era você alem das outras três
Eu enfrentava os batalhões, os alemães e seus canhões
Guardava meu bodoque e ensaiava o rock para as matinês…”)
Emerson, Lake & Palmer, Gênesis, Pink Floyd, Yes, Jethro Tull, Queen, Deep Purple, músicas para viagens alucinógenas, compartilhadas com amigos ou ouvidas no apartamento onde a solidão era o melhor amigo. The Police, The Smiths, Clash, Talking Heads, The Doors, todas bandas que marcaram épocas com sons diferentes, instigantes e, ainda hoje, soam contemporâneas, são influências para muitos músicos iniciantes. O chamado rock progressivo buscava experimentação e sons exóticos, eram músicas longas e não dançantes, ou não da maneira como se dançavam rock naqueles tempos.
(“… Tristeza não tem fim. Felicidade sim
A felicidade é como a gota de orvalho numa pétala de flor
Brilha tranqüila depois de leve oscila e cai como uma lágrima de amor…”)
É tanta diversidade musical e tantos “rótulos” que fica difícil separá-los por gênero, pois ainda há outras tendências e novos “conceitos” surgindo a todo momento, mas; Mamas and Papas, Rolling Stones, Rush, Led Zeppelin, Uriah Heep, Slade, AC/DC, Peter Frampton, Miles Dives, Ron Carter, Bob Dylan, Nat King Cole, Frank Sinatra, Astor Piazzolla (brilhante), Bene Goodmann, Harry James, Miles Davis, Glenn Miller, Duke Elington, Sting, Erick Clapton, Peter Gabriel, Lou Reed, Santana, entre outros, muitos, músicos fabulosos, são diferentes entre si, no entanto suas músicas conseguem nos prender da mesma maneira, o prazer que se tem ao ouvi-los é incomparável pois se descobre tons e notas, arranjos impressionantes, que lamento quando alguém ousa dizer que é perda de tempo ficar ouvindo música que dizem não entender. A boa música, diga-se de passagem, não é limitada apenas ao idioma.
(“…Teus zói é a flor da paisagem
Sereno fim da viagem
Teus zói e a cor da beleza
Sorriso da natureza…”)
A medida em que crescia, aumentavam meus conhecimentos. A música instrumental encantou-me e pude conhecer o prazer de ouvir belas e harmoniosas melodias, onde a letra não se faz necessária, onde somente os sons dos instrumentos “falam” o único idioma conhecido em todo planeta. Hermeto Pascoal, Sivuca, Egberto Gismonti, Pat Metheny, Jean Luc Ponty, Toninho Horta, Zimbo Trio, Marco Antônio Araújo, Jairo de Lara, etc., tem em comum a capacidade de criar sons inimagináveis, verdadeiras obras que encantam a todos aqueles que já os conhecem.
(“…Quando a luz dos olhos meus
E a luz dos olhos teus
Resolvem se encontrar
Ai, que bom que isso é meu Deus
Que frio que me dá o encontro desse olhar…”)
Músicos de outros centros; Milton Nascimento, Beto Guedes, Lô Borges, Tavinho Moura, Wagner Tiso, Flávio Venturini, Cazuza, Renato Russo, Leila Pinheiro, Fátima Guedes, Djavan, Zeca Balero, Chico César, Paulinho Moska, Vitor Ramil, Rafael Rabelo, Ney Matogrosso, Paralamas do Sucesso, Lobão, Quinteto Violado, Skank, Marcelo Delacroix, Los Hermanos, etc. São tantos e tão importantes no cenário da música popular brasileira, suas músicas ainda são referência de amores passados, presentes, de lugares visitados, de grandes conquistas, de perdas lamentáveis. Enriqueceram minha vida e marcaram passagens importantes que jamais esquecerei.
(“… A hora do encontro é também despedida
A plataforma dessa estação
É a vida deste meu lugar
É a vida deste meu lugar, é a vida…”)
A harmonia e a delicadeza em letras de compositores brasileiros, a voz cálida, embriagadora, suave, maravilhosa de alguns de nossos intérpretes, expõe de forma clara todo nosso sentimento, falam o que gostaríamos de expressar e no entanto nos falta esta singela delicadeza. Ivan Lins, Djavan, Guinga, João Bosco, Aldir Blanc, Leni Andrade, César Camargo Mariano, Francis Hime, Dominguinhos, Gonzaguinha, Maria Bethânia, Lenine, a fantástica família musical dos Caymmi, composta pelo patriarca Dorival, e os filhos Dori, Nana e Danilo, com canções que acalentam, envolvem e emolduram momentos. É um prazer ouvi-los, músicas que satisfazem imediatamente, como se fossem feitas sob medida para nossos sentimentos.
(…”Se eu cantar não chore não
é só poesia
eu só preciso ter você por mais um dia
Ainda gosto de dançar, bom dia
Como vai você?…”)
Há também as surpresas que encantam pela diversidade e pela forma como constroem harmonias, pelo inusitado das letras em suas composições ou na maneira de interpretar; Na Ozzetti, Luiz Tati, Grupo Rumo (já extinto), Os Mulheres Negras (idem) Maurício Pereira e André Abujamra (ex Karnack, ex Mulheres Negras), Ceumar, Dante Ozzetti, a voz doce, envolvente e apaixonante de Mônica Salmaso. Arrigo Barnabé, Luís Melodia, Itamar Assunção, Vânia Bastos, Eduardo Gudin. Quem nunca os ouviu certamente desconhece a música inteligente, aquela que mexe com nossos neurônios, instiga, perturba e encanta.
(“…Tem certos dias em que eu penso em minha gente
E sinto assim todo meu peito se apertar
porque parece que acontece de repente
Feito um desejo de eu viver sem me notar…”)
A música, em minha vida tem marcado, profundamente, várias passagens, fatos marcantes, outros nem tanto, faz parte da minha memória e, vez em quando, passeio por lugares ali guardados e outros que evocam sonhos, alguns dos quais realizei, outros no entanto jamais realizarei. Viver é um pouco isto, se não se realiza há ainda a possibilidade de sonhar.
(“… Certas canções que ouço
cabem tão dentro de mim
Que perguntar carece
Como não fui eu que fiz…”)
Posso dizer que sou eclético sim, mas alguns gêneros não suporto. Que me perdoem fankeiros, pagodeiros e outros “eiros”. Duplas caipiras, Vanessas Camargo e Ivetes Sangalo. Se por um lado tenho um ranço natural para axé music, Chiclete com Banana, e músicas em que o povo acompanha fazendo ondas com os braços, os chamados “macacos de auditório”, por outro lado, gosto deveras de outros gêneros: blues, jazz, rock, clássicos, instrumental, ópera (quem diria!). Música. Boa música; Cold Play, Norah Jones, a voz deliciosa de Madeleine Peyroux, Jorge Drexler, etc. Tudo bem se alguns torcerem o nariz ou mesmo resolverem deixar de ler e parar por aqui, mas gosto não se discute. E, não gostar, não significa desrespeitar. Meu epitáfio já escolhido é “Aqui Blues”.
(“… Eu faço samba e amor até mais tarde
E tenho muito sono de manhã
Escuto a correria da cidade que arde
E apressa o dia de amanhã
De madrugada a gente inda se ama
E a fabrica começa a buzinar
O trânsito contorna a nossa cama – reclama
Do nosso eterno espreguiçar…”)
Quando penso no passado, nas coisas que já vivi, não encontro nada que me faça ser existencialmente diferente de outros, exceções à regra. A vida é uma sucessão de repetições, de situações idênticas e, ingenuamente, nosso egocentrismo não nos permite perceber que todos vivenciam exatamente o mesmo; perdas e ganhos. Mas me conforta, e muito, reconhecer e apreciar a boa música. Tive e tenho ainda o privilégio de ouvir belas músicas, verdadeiras jóias da cultura popular, e nem sei se posso dizer que lamento que isto não seja compartilhado por todos, talvez por imaginar que muitos não lhes darão valor devido, o que é lamentável. É um universo que se pudesse estender a todos, certamente faria o mundo ser diferente, e não seria absurdo pensá-lo melhor. A música é uma das artes onde o ser humano se expressa com maestria, conseguindo mexer com nossos sentimentos, nos fazendo acreditar, mesmo que por instantes, que podemos, através da delicadeza sonora, sonhar e acontecer.
(“… Meu coração
Não sei porque
Bate feliz
Quando te vê
E os meus olhos
Ficam sorrindo
E pelas ruas
Vão te seguindo
Mais mesmo assim
Foges de mim…”)
O ser humano é ambíguo, tanto pode extinguir como pode criar. Lamentavelmente tem mais sucesso ao fazer o primeiro. Mas, quando resolve criar, nos dá a devida noção do quanto somos ou podemos ser sensíveis. Ouvir Louis Armistrong cantando “What A Wonderful World”, ou Jonh Lennon com “Imagine”, é para alguns um momento de reflexão profunda. Fica difícil tentar entender porque destruímos tanto, quando temos a capacidade de criar coisas como lindas canções. A música faz o contraponto, pode-se ver um exemplo disto no filme The pianist (O pianista) de Roman Polanski, 2002, ali fica claro porque dizem que ela acalma as feras. O antagônico deixa de existir para ser apenas um em comunhão.
(“…Eu tinha um ombro de algodão
Pra ajeitar seu sono
Eu tinha uma água morna
Pra lavar o seu suor
E o meu corpo uma fogueira
Pra esquentar seu frio
E a minha barriga livre
Pra gerar seu filho…”)
Há muitos outros ainda que deveriam ter sido citados, tão importantes quanto aqueles que aqui descrevi. Mas descobri-los lhe será prazeiroso, faça isto. Mais importante do que faze-lo ainda, é ouvi-los com atenção que merecem. Reserve algum tempo e perceba que existem muitas coisas, além de pagode e música sertaneja (sem desmerecer aqueles que realmente fazem música de qualidade, nestes gêneros musicais). Listei abaixo, exemplos de maravilhas compostas que você deveria ouvir, experimentar, ao menos uma vez na vida.
As quatro estações de Antonio Vivaldi;
Porgy & Bess com Ella Fitzgerald and Louis Armstrong;
As quatro estações porteñas de Astor Piazzolla;
Os Mestres Cantores de Nuremberg de Richard Wagner;
Bachianas de Heitor Villa-Lobos.
São gêneros diferentes, espetaculares, capazes de nos transportar a lugares mágicos, de nos oferecer mais que o prazer de apenas ouvir uma excelente música de qualidade. São sentimentos, emoções que eclodem em todas as suas formas, compostas harmoniosamente. Se você escutar com atenção, perceberá quando um movimento é alegre, quando ele é triste, vai descobrir na execução de uma obra o que o autor quis transmitir. Quando entender isto, a música não mais o deixará. Dizem que quem leva a música consigo jamais ficará sozinho. Bem, gosto de pensar que estou sempre bem acompanhado.
Espero que lhe toque a alma como acontece comigo. O prazer desfrutado é ímpar, inenarrável. A seguir copiei a letra de uma música composta pela Joyce e pelo Maurício Maestro chamada “Mistérios”. Leia, procure ouvi-la e, se possível, deixe-se encantar por este dom maravilhoso do ser humano que é capacidade de criar Música.
Mistérios
Um fogo queimou dentro de mim
Que não tem mais jeito de se apagar
Nem mesmo com toda água do mar
Preciso aprender os mistérios do fogo pra te incendiar
Um rio passou dentro de mim
Que eu não tive jeito de atravessar
Preciso um navio pra me levar
Preciso aprender os mistérios do rio pra te navegar
Vida breve, natureza
Quem mandou, coração?
Um vento bateu dentro de mim
Que eu não tive jeito de segurar
A vida passou pra me carregar
Preciso aprender os mistérios do mundo pra te ensinar
Músicas:
- parte I
Sapato Velho (Cláudio Nucci e Paulinho Tapajós);
Nascente (Beto Guedes);
Eu te amo (Chico Buarque);
Todo Azul do Mar (Flávio Venturini e Ronaldo Bastos);
Atrás da Porta (Chico Buarque e Francis Hime);
Nuvem Cigana (Lô Borges);
O trem azul (Lô Bores);
Tarde em Itapuã (Toquinho);
Alguém Cantando (Caetano Veloso);
Sabiá (Tom Jobim);
Como Nossos Pais (Belchior);
Beatriz (Edu Lobo e Chico Buarque);
A noiva da cidade (Chico Buarque e Francis Hime);
Flor de Liz (Djavan);
Porque é proibido pisar na grama (Jorge Ben);
Alegre Menina (Djavan);
Atiraste uma pedra (Dalva de Oliveira);
Terra (Caetano Veloso);
Me chama (Lobão);
Onde anda você (Vinícius de Moraes e Hermano Silva);
Distantes Demais (Lenine e Dudu Falcão);
Roda Viva (Chico Buarque);
- parte II
João e Maria (Chico Buarque);
A felicidade (Agostinho dos Santos);
Flor da paisagem (Fagner);
Pela luz dos olhos teus (Vinícius de Moraes);
Encontros e despedidas (Milton Nascimento);
Um girassol da cor de seu cabelo (Lô Borges);
Gente Humilde (Chico Buarque, Vinícius de Moraes e Garoto);
Certas Canções (Milton Nascimento);
Samba e Amor (Chico Buarque);
Carinhoso (Pixinguinha e João de Barro);
Mãos de afeto (Ivan Lins);
Mistérios (Joyce e Maurício Maestro).
(*)Postado originalmente em 20/04/08